Análise: A.I.L.A é uma experiência criativa e cativante, mas que tropeça em um combate atrapalhado

O jogo é uma evolução em todos os aspectos do seu antecessor Fobia.

em 08/12/2025

A.I.L.A
é um jogo brasileiro do gênero Survival Horror em primeira pessoa com elementos de RPG, como a possibilidade de fazer escolhas durante a história, gerando finais diferentes. No jogo, acompanhamos Samuel, um testador de jogos que recebe um console com uma inteligência artificial chamada A.I.L.A. Logo, ela se mostra saindo do controle e transformando a vida de Samuel em um inferno.

O jogo é o segundo projeto do estúdio Pulsatrix, o mesmo responsável por Fobia. Posso adiantar que este novo projeto é uma evolução natural do anterior em todos os aspectos. Meu único problema com ele foi seu combate.

Podemos realmente confiar nas IAs? 

O título desta parte da análise é o tema central da narrativa de A.I.L.A, se podemos ou não confiar nas IAs, tanto pela relação conturbada do protagonista Samuel com a inteligência artificial problemática, quanto pela situação do mundo do jogo, que se passa em 2035 e tem enfrentado sérios dilemas em relação às inteligências artificiais. Alguns desses são assuntos atuais, como o custo gerado pela manutenção de servidores de IAs e o impacto ambiental resultante disso, já que muitos desses sistemas precisam de muita água para refrigeração.

Mais do que essa crítica, os momentos em que o protagonista e a antagonista conversam são ótimos. Em um jogo que possui escolhas que alteram a história, essas escolhas possuem Karma, espécie de moralidade. Ou seja, ações boas e ruins que podem gerar até 7 finais diferentes. É interessante ver como algumas delas são questionadas pela A.I.L.A, o que gera debate sobre algum aspecto humano que ela não entende completamente.

Isso é ainda mais impulsionado pela excelente dublagem que o jogo possui, com Luiza Caspary (voz de Ellie em The Last of Us) na A.I.L.A e Fábio Azevedo (voz de Kyle Crane em Dying Light) no protagonista Samuel. 

Ambos os dubladores dão carisma aos personagens. Para finalizar, Samuel me surpreendeu. Ele é um personagem bem humano, com traumas e medos, que erra e acerta durante a história. As escolhas que o moldam são feitas pelo jogador.

Samuel, o testador de jogos

É possível dividir a jogabilidade em duas etapas. A primeira é quando controlamos o personagem pelo seu apartamento. Podemos explorá-lo, interagir com vários objetos e fazer carinho no seu gato de estimação Jones. Inclusive, no quarto do protagonista, é possível ver colecionáveis, como estátuas dos inimigos que ele enfrenta nos jogos criados por A.I.L.A.

Um detalhe legal é que o jogo está recheado de Easter Eggs, tanto de YouTubers como Davy Jones, Lucky Salamander e Games EduUu, quanto de referências a jogos que foram inspiração para A.I.L.A, como Resident Evil (principalmente o 7 e 8), Silent Hill, entre outras obras.
Durante a exploração do apartamento é quando podemos descobrir mais sobre o protagonista. Por exemplo, achando uma moeda dos Alcoólicos- Anônimos, sabemos que ele tinha problemas com consumo de álcool, mas agora está sóbrio há um ano. Também podemos ver TV para acompanhar as notícias sobre esse futuro de 2035.

A.I.L.A a mestra dos jogos

A outra parte da jogabilidade está nas fases criadas por A.I.L.A e testadas por Samuel. São seis mundos criados pela inteligência artificial, cada um com temáticas diferentes: temos um prédio abandonado, um cenário medieval, de piratas e uma floresta macabra. Todos os cenários são muito bem detalhados e usam muito bem a sonoplastia para provocar medo e tensão no jogador. Barulhos de galhos quebrando, madeira rangendo e portas abrindo estão sempre presentes para deixar o jogador desfocado.


Ficando vulnerável para tomar um susto, o jogo usa bastante dos jump scares. A maioria funcionou bem comigo, principalmente os que envolviam manequins. Porém, depois de algumas fases, essa estratégia já não funciona tão bem, ficando um pouco previsível. Mas é neste momento que o jogo contorna essa situação com o posicionamento de alguns inimigos e outras estratégias, como os sons que mencionei.

Mas, embora o título aposte bastante no terror, ele ainda é Survival Horror. Logo, possui uma estrutura parecida com os títulos mais recentes de Resident Evil. As fases são lineares, mas podem ser exploradas para achar recursos como munição e colecionáveis, além de possuir os clássicos quebra-cabeças, que estão bem acessíveis. Eles estão na medida certa: normalmente envolvem números ou posicionar algum objeto na posição correta.

Os níveis também contam com escolhas que vão afetar o Karma do protagonista, como poupar ou matar algum NPC, beber ou não um líquido que supostamente deixaria o personagem muito forte. O título entrega bastante ação, mais do que eu esperava, tendo um arsenal de armas competentes que variam de pistolas, machados, clavas, espadas, escopeta, etc.

A jogabilidade com elas é agradável, porém o jogo não responde bem a trocas muito rápidas, como sair da espada para a escopeta e da mesma para a pistola. Conseguir munição para as armas de fogo não é difícil, já que o jogo é bastante generoso com elas, que ficam espalhadas pelos cenários em cima de objetos ou dentro de gavetas.

Porém, os inimigos são atrapalhados, ficando travados às vezes em objetos do cenário e muitas vezes errando alguns golpes ou andando em linha reta para o jogador enchê-los de chumbo, raramente desviando, o que torna o combate monótono.

Os chefes, presentes em todas as fases, sofrem igual aos inimigos comuns: erram ataques e possuem arenas muito grandes, o que permite que o jogador apenas corra em volta do chefe, atirando nele até ele morrer, tornando os confrontos bem sem graça, já que eles são "esponjas de dano" que reagem muito pouco.


Acredito que arenas menores e um comportamento mais agressivo ajudariam, o que tornaria as lutas mais emocionantes e fariam jus à trilha sonora épica que sempre toca ao fundo nesses momentos. Além disso, o jogo conta com alguns bugs, como inimigos entrando no chão e algumas texturas bugadas, mas logo deve ser resolvido com uma atualização. Muitos desses problemas já foram resolvidos no PC em um Patch de correção, mas o mesmo ainda não chegou aos consoles. 

Brasil é uma potência em ascensão


A.I.L.A
é mais uma prova de que o mercado brasileiro de jogos está em ascensão. O título entrega uma história excelente, com um bom protagonista e uma antagonista ótima, ambos com uma dublagem excepcional e seis fases únicas com cenários detalhados e um ótimo trabalho de som para causar medo no jogador, além de puzzles que desafiam sem frustrar. Porém, o título tropeça em um combate atrapalhado, com inimigos e chefes sem graça.

Prós

  • História excelente, com escolhas que afetam o karma do protagonista gerando 7 finais diferentes, incentivando o jogador a rejogar para ver diferentes finais;
  • Dublagem em português excelente, trazendo vozes como a de Luiza Caspary na A.I.L.A e Fábio Azevedo no protagonista Samuel;
  • Fases com temáticas diversificadas e visualmente surpreendentes, trazendo locais como navios piratas, castelos medievais e florestas assombradas. Tudo acompanhado de um excelente trabalho de som que enriquece a ambientação.
  • Quebra-cabeças divertidos, desafiando o jogador sem exagerar na dificuldade.

Contras

  • Combate travado e pouco responsivo, por vezes não interpretando comandos rápidos;
  • Lutas contra chefões são sem graça, pois eles têm pouca variedade de movimentos e eles acabam sendo apenas "esponjas de dano"
  • Alguns pequenos bugs de texturas, com partes ficando levemente borradas e inimigos entrando no chão ou travados trava em objetos, mas logo deve ser arrumado com Patch Note.
A.I.L.A— PS5/XSX/PC — Nota: 8.0
Versão usada para análise: PlayStation 5
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Pulsatrix Studio


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Thiago da Silva e Silva
É um universitário se formando em engenharia na UFRRJ,apaixonado por jogos desde a infância, principalmente RPGs.
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